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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

NEGÓCIO: Sem a Transnordestina, polo gesseiro de PE enfrenta dificuldades com transporte

Imagem: Wagner Sarmento / TV Globo
O maior produtor de gesso do Brasil, responsável por mais de 90% da produção nacional, o polo gesseiro de Araripina, que fica no sertão de Pernambuco e abrange cinco municípios, vislumbrou na ferrovia Transnordestina uma chance de ouro. A ferrovia não veio, fábricas fecharam as portas e muitas sobrevivem sob o manto da ilegalidade.

A redução no frete, que hoje custa de duas a quatro vezes mais do que a matéria-prima, ampliaria a competitividade das empresas pernambucanas no mercado brasileiro e internacional. No pico da obra, em 2010, dezenas de novas empresas foram criadas. Muitas fecharam.

A região tem 39 minas de gipsita, minério do qual é feito o gesso. Em apenas uma dessas minas, há gipsita suficiente para pelo menos 200 anos de exploração. São mais de 700 indústrias de pré-moldados e 140 calcinadoras, fábricas que transformam a pedra em pó. Mais de 13 mil pessoas vivem diretamente do gesso.

Mas nem toda matemática favorece o polo gesseiro. Uma tonelada de gipsita custa em média R$ 22. A mesma medida do gesso em pó vale R$ 150. “O frete rodoviário chega a custar R$ 200 por tonelada”, salienta o empresário Josias Inojosa Filho, ex-presidente do Sindicato da Indústria do Gesso (Sindusgesso).
Os números também explicam os benefícios que a Transnordestina poderia trazer. Para se ter ideia, um vagão transporta em torno de 100 toneladas, em média cinco vezes mais que um caminhão. Cada locomotiva leva cerca de 20 vagões. Além de aumentar a capacidade de escoamento, o frete ferroviário custa um terço do rodoviário.

“O frete é um fator limitante, sobretudo quando se fala em mercado internacional e competitividade. As grandes empresas do Sudeste e Centro-oeste do Brasil preferem importar a gipsita da Espanha do que comprar da gente. Ou seja, um produto que vem de navio do outro lado do mundo sai mais barato que o vendido aqui. A Transnordestina ajudaria a mudar esse cenário”, avalia Inojosa.

O caminhoneiro Luciano Jesus da Silva é exemplo do quanto o frete rodoviário dificulta a economia. A bordo de um caminhão de 52 toneladas, esperava o veículo ser carregado com gesso para levar o produto até Canoas, no Rio Grande do Sul, uma viagem de mais de 3,5 mil quilômetros, que duraria cerca de uma semana.

“A viagem é longa e cansativa, as estradas são ruins e, se um pneu fura, complica tudo. A gente trabalha com uma margem mínima de lucro”, pondera.

A gipsita, tratada como o ouro branco do Araripe, tem potencial de utilização variado. Pode ser usada em áreas como agricultura, construção civil, indústria automotiva, medicina e odontologia. Foi o que fez Josias Inojosa Filho. Sua empresa passou a ramificar a produção, oferecendo produtos mais lucrativos como o gesso dental, cuja tonelada custa R$ 16 mil, e uma massa corrida de gesso, que promete vantagens em relação à tradicional. Ainda assim, os efeitos da crise no polo gesseiro são sentidos: a fábrica, que tinha mais de 200 funcionários, agora conta com 117.

Quem não consegue aumentar o valor agregado para competir sofre consequências ainda mais dramáticas. Fábricas fechadas e abandonadas são um cenário comum em Araripina. Gente que sempre viveu do gesso perdeu o emprego e buscou alternativas de sobrevivência. Demitido de uma indústria há quatro meses, Genilson Abreu fez de seu casebre uma pequena fábrica. Trabalha sozinho no local e produz, por dia, 200 placas de gesso. Comercializa cada uma por R$ 1,20, preço mais em conta que o oferecido por empresas maiores.

“Carteira assinada é sempre melhor porque é garantido, mas hoje em dia está feio. Como eu sabia fazer, vou fazendo devagarzinho por aqui”, comenta ele, que consegue tirar em torno de R$ 1,8 mil mensalmente.

A presidente do Sindusgesso, Maria Ceissa Costa, critica a informalidade, vista como outro fator que prejudica a competitividade. “São muitas as empresas que atuam de maneira ilegal. A gente vem batendo nisso, pedindo ao governo estadual para que haja um controle maior, mas eles dizem que é difícil”, diz.

Por Wagner Sarmento / TV Globo

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