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segunda-feira, 5 de junho de 2017

FESTEJOS JUNINOS: Cantor Silvério Pessoa vê essa tradição em processo de extinção

Reprodução internet
"Danei a faca no tronco da bananeira/não gostei da brincadeira, Santo Antonio me enganou/saí correndo lá pra beira da fogueira/Ver meu rosto na bacia, a água se derramou". É cada vez menor o numero de nordestinos que entendem o significado desses singelos versos de Brincando na Fogueira (Antonio Barros), sucesso do Trio Nordestino em 1967, e um dos clássicos definitivos do repertório junino. As adivinhações e simpatias que, junto com a culinária, a música e a dança, formam o conjunto de tradições da principal festa do Nordeste estão praticamente esquecidas. Logo será o próprio São João, que vem passando por transformações rápidas e radicais: "Há este risco, o da extinção da festa, suas características já estão sendo esquecidas. O aspecto da religiosidade, por exemplo, a devoção aos santos do período, Santo Antônio, São Pedro e São João, a ligação com a colheita do milho, tudo. A importância do período é muito forte para o nordestino. Até roupa própria se comprava para a ocasião: a camisa quadriculada", o comentário é de Silvério Pessoa, ele próprio um dos modernizadores dos gêneros musicais embutidos no coletivo forró, quando acrescentou beats eletrônicos a cocos e rojões.

Silvério questiona, entre outras coisas, que se dediquem trinta dias aos festejos juninos: "São João mesmo é a véspera, e o dia do santo. Depois se festeja o São Pedro. Esta coisa de um mês inteiro acaba levando os municípios pequenos a imitar as cidades grandes que fazem 30 dias de festa, e sem recursos contratarem um monte de artistas. Não vejo motivo para isso. O São João deixou de ser uma festa da família nordestina. Eu sou de interior, de Carpina, e cresci vendo as pessoas brincarem nos arraiais na rua em que moravam, em quadrilhas organizadas por elas, tinha todo um ritual. Ninguém precisava se deslocar para o centro da cidade para assistir a show. A cultura popular transformou­se num grande negócio em que entram secretários, prefeitos e produtores para uma programação com artistas que não têm ligação com a festa".

Com um disco novo, Cabeça Feita, em que revisita o repertório de Jackson do Pandeiro, Silvério Pessoa montou um repertório junino que agrupa músicas deste álbum com aquele que gravou de Jacinto Silva para o disco Bate o Mancá, além de canções autorais. Sua agenda ainda não está fechada, mas tem acertados dois shows em Caruaru. No dia 17, canta numa espécie de trio elétrico do forró, um palco itinerante que visitará distritos da cidade. Neste, terá como companhia o paraibano Biliu de Campina.

No dia seguinte se apresenta no palco principal do São João de Caruaru, numa noite que terá também Novinho da Paraíba, Nando Cordel e Gatinha Manhosa. Desde 2000, quando lançou Bate o Mancá, Silvério Pessoa é escalado para o Pátio do Forró, o palco "nobre" do São João de Caruaru, isso sem ter emplacado sucesso nacionais e frequentar pouco a mídia: "Já me apresentei várias vezes no palco principal de Caruaru, e sempre sem fazer concessões, nem canto Luiz Gonzaga. Faço um mix de meus discos, um apanhado da minha obra ligada à atmosfera da tradição. Não considero que essas bandas façam forró, esses artistas são colocados ali como uma estratégia, para sustentar o discurso de que estão valorizando os forrozeiros. Mas é um despiste, eles quase sempre cantam em horários secundários", comenta o músico, que já tem vinte anos de estrada.

Por José Teles / JC

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